1. Book

    OS ÚLTIMOS DIAS DE KRYPTON

    Antes de haver um Superman, havia Krypton.

    Antes do Apocalipse – que fez o bebê conhecido mais tarde como Clark Kent ser enviado à Terra – Krypton prosperava. Na cidade de Kandor, o cientista Jor-El e a historiadora Lara casaram-se e tiveram Kal-El, o único que sobreviveria ao fim do mundo.

    Tudo era harmonia e perfeição numa civilização com baixíssimo índice criminal, quando um alienígena invade o planeta e provoca uma tragédia irremediável para os kryptonianos. É a grande chance do diabólico General Zod tomar o poder e implantar uma ditadura que usará da invenção tecnológica de Jor-El para subjugar a todos.

    E em meio a tudo isso, uma tragédia fatal se aproximava – um destino catastrófico profetizado por Jor-El que mudaria a história kryptoniana para sempre...

  2. O sol vermelho de Krypton se assomava no céu, um gigante inquieto. Em suas camadas gasosas, células condutoras de calor do tamanho de um
    planeta se agitavam como bolhas em um caldeirão infernal em câmera lenta. Delicadas bandeirolas coronais dançavam pelo golfo do espaço, interrompendo as comunicações planetárias.

          Jor-El estava esperando havia muito tempo por uma tempestade cintilante como essa. Em seu laboratório isolado, ele havia monitorado suas sondas solares, ansiosamente fazendo preparativos. O momento estava próximo.

         O visionário cientista tinha montado seu equipamento no prédio de pesquisa amplo e aberto em sua propriedade. Jor-El não tinha assistentes porque ninguém mais em Krypton entendia

    exatamente o que ele estava
    fazendo; na verdade, alguns outros pareciam se preocupar. As pessoas de seu planeta estavam satisfeitas. Muito satisfeitas. Por outro lado, Jor-El raramente se deixava sentir complacente ou satisfeito. Como poderia, quando ele podia imaginar facilmente tantas maneiras de melhorar o mundo? Ele era uma verdadeira anomalia na “sociedade perfeita”.
         Trabalhando sozinho, calibrava feixes de raios através de centralizadores de cristal, usava ferramentas alinhadoras de laser para ajustar os ângulos de discos refletores convergentes, checava mais de uma vez seus prismas resplandecentes em busca de falhas. Pelo fato de seu trabalho ter desafiado os limites da pouco inspirada ciência kryptoniana, ele havia sido forçado a desenvolver boa parte de seu aparato básico sozinho.

         Quando abriu a série de painéis feitos de uma liga de metal que ficava no teto de seu prédio de pesquisa, uma luz escarlate se espalhou pelo laboratório. Logo o fluxo solar alcançaria o nível desejado. Uma ávida curiosidade científica lhe dava mais incentivo do que sua reverência pelo gigante vermelho, que os sacerdotes haviam batizado de Rao. Ele monitorava os níveis de poder exibidos pelos medidores planos de cristal.

         Durante todo o tempo, a luz do sol resplandecia visivelmente mais brilhante. As labaredas continuavam crescendo.

         Embora fosse jovem, Jor-El tinha um cabelo espesso e característico, tão branco como marfim, e que lhe dava um ar suntuoso. As belas e clássicas feições em seu rosto pareciam ter sido modeladas diretamente do busto de um antigo nobre kryptoniano, tal como seu venerado ancestral Sor-El.

    Alguns poderiam achar que seu semblante de olhos azuis era distante e preocupado, mas, na verdade, Jor-El enxergava muitas coisas que os outros não viam.

         Ele ativou seus bastões de cristal cuidadosamente dispostos, configurando uma melodia harmônica de extensões de onda. No telhado, espelhos laminados e oblíquos projetavam seus reflexos em um prisma central concentrado.
    Os cristais roubavam apenas um segmento preciso do espectro, depois desviavam o raio filtrado para tanques espelhados parabólicos feitos de mercúrio semitransparente. À medida que a intensidade da tempestade solar aumentava, os espelhos de mercúrio começaram a se encrespar e borbulhar.

        Seguindo o plano, Jor-El rapidamente retirou um cristal de âmbar e o inseriu em sua entrada no painel. As facetas lisas da pedra já queimavam a ponta de seus dedos. O primeiro raio se estilhaçou formando uma teia de aranha luminosa que ligava o labirinto de espelhos e cristais.

         Em instantes, se a experiência funcionasse, Jor-El abriria uma porta para outra dimensão, um universo paralelo – talvez até mais do que um.

          A propriedade ampla e afastada, a muitos quilômetros de Kandor, era perfeita para Jor-El. Seu prédio de pesquisa era tão grande quanto um salão para banquetes. Enquanto outras famílias kryptonianas teriam usado tal espaço
    para bailes de máscaras, festas ou apresentações, o outrora famoso pai de Jor-El optou por erguer toda a propriedade como uma celebração da descoberta,

    um lugar onde toda questão pudesse ser investigada, independentemente das restrições tecnofóbicas impostas pelo Conselho Kryptoniano. Jor-El deu um bom uso a essas instalações.

         Para uma experiência dessa magnitude, ele havia pensado em chamar o irmão que morava em Argo City. Embora poucos pudessem ter uma genialidade que se equiparasse à de Jor-El, seu irmão de cabelos escuros, Zor-El, apesar de seu mau humor ocasional, possuía a mesma ânsia de descobrir o que ainda precisava ser conhecido. Na duradoura e cordial rivalidade, os
    dois filhos de Yar-El sempre tentavam superar um ao outro. Depois daquele dia, se a experiência desse certo, ele e Zor-El teriam um novo universo inteiro para investigar.

          El retirou outro cristal do painel de controle, o girou e o enfiou novamente. À medida que as luzes brilhavam e as cores se intensificavam, ele foi ficando inteiramente absorvido pelo fenômeno.

         Isolado em suas salas abafadas na capital, o Conselho Kryptoniano de onze membros havia proibido o desenvolvimento de qualquer tipo de aeronave, eliminando efetivamente qualquer possibilidade de exploração do universo. A partir de registros antigos, os kryptonianos estavam muito conscientes da existência de outras civilizações nas 28 galáxias conhecidas, mas
    o governo repressor insistia em manter seu planeta afastado “para a sua própria proteção”. Essa regra tinha sido estabelecida havia tantas gerações que a maioria das pessoas a aceitava, como era de se esperar.


          Apesar disso, o mistério por trás da existência de outras estrelas e planetas sempre intrigou Jor-El. Por não ser capaz de desobedecer às leis, não importa o quanto as restrições pudessem parecer frívolas, ele foi buscar caminhos que as contornassem. Porém, as regras não podiam impedir que ele viajasse em sua imaginação.

          Sim, o Conselho não havia permitido a construção de espaçonaves, mas, de acordo com os cálculos de Jor-El, poderia haver um número infinito de universos paralelos, incontáveis Kryptons alternativas nas quais cada sociedade
    poderia ser levemente diferente. Jor-El poderia, portanto, viajar de uma nova maneira – apenas se pudesse abrir a porta para esses universos. Nenhuma espaçonave era necessária. Tecnicamente, ele não estaria desrespeitando
    nenhuma lei.

         Quando a energia solar intensificada atingiu seu pico, um feixe de luz controlada penetrou através das lentes do teto e foi parar no meio do laboratório de Jor-El como se fosse uma seta de fogo. Os raios multiplicados se reuniram em um único ponto de convergência e depois ricochetearam na própria textura do espaço. A rajada concentrada golpeou a própria realidade e abriu um buraco para algum outro lugar... ou para lugar nenhum.

         Os anéis prateados de contenção se cruzaram, giraram ainda mais rápido e mantiveram aberta uma minúscula fenda que se expandiu em um equilíbrio de energia positiva e negativa. Enquanto aquela luz ofuscante fluía para dentro daquele pequeno ponto vazio, a fenda cresceu até ficar tão larga quanto a mão do cientista, depois atingiu o tamanho do seu antebraço,

    até que finalmente se estabilizou, com dois metros de diâmetro, estendendo-se até a borda dos anéis.

         Um portal circular pairou no ar, perpendicular ao chão... algo que uma pessoa curiosa poderia simplesmente adentrar caminhando. Atrás daquela abertura, Jor-El sabia que poderia encontrar novos mundos para explorar,
    infinitas possibilidades.

         Em um pedestal à frente do portal flutuante, o dispositivo cristalino de controle emitia um brilho quente e intenso. Para estabilizar o sistema volátil, ele retirou os cristais de força auxiliares e depois inclinou as parábolas de mercúrio para desviar o feixe principal de luz solar. A força se dissipou, mas a singularidade se manteve. O portal dimensional permaneceu aberto.

         Deslumbrado, Jor-El deu um passo à frente.

    Ele já havia sentido muitas vezes a deliciosa emoção da descoberta, a onda do sucesso que vinha quando a experiência dava os resultados que estavam previstos ou, melhor ainda,
    quando algo maravilhosamente inesperado acontecia. Esse portal tinha o potencial de gerar ambas as situações.

         Quando o estranho portal não oscilou, ele freou cuidadosamente a rotação dos anéis de prata, para que ficassem pairando verticalmente, imóveis, no ar. Embora o entusiasmo o tentasse a pegar atalhos, sua mente analítica sabia das coisas. Ele começou a fazer testes.

         Primeiro, como se fosse uma criança jogando seixos em um lago tranquilo, pegou uma caneta que estava na mesa de trabalho e a jogou cuidadosamente dentro da abertura.

    Assim que o fino instrumento tocou na barreira invisível e nela penetrou, sumiu completamente e apareceu do outro lado, no outro universo. Só deu para Jor-El avistar um reflexo embaçado do mesmo, flutuando além do seu alcance. Mas ele não conseguia ver detalhes do estranho lugar que havia descoberto. E não via a hora de descobrir o que havia por lá.

         Maravilhado, Jor-El se aproximou do portal vazio. Ele não via nada – absolutamente nada –, um vácuo insondável no ar. Desejou ter alguém do seu lado. Aquele grande momento devia ser compartilhado.

          Ele gritou dentro da abertura.
         – Alguém pode me ouvir? Tem alguém aí?

         – O portal continuou em silêncio, um vácuo que drenava toda luz e som.

         Para o próximo teste, Jor-El prendeu uma lente teleobjetiva de cristal a um telescópio que retirou de um equipamento ocioso numa das paredes do prédio de pesquisa. Cuidadosamente ele estenderia a haste com a lente através da barreira, permitiria que ela fotografasse o ambiente do outro lado e depois retiraria a ferramenta. Examinaria as imagens e determinaria qual seria o próximo passo. E testaria o ar, a temperatura e o ambiente daquele outro universo.

         Mais cedo ou mais tarde, contudo, sabia que estava destinado a explorá-lo.
         Prendendo a respiração, Jor-El estendeu a haste e empurrou a teleobjetiva de cristal para dentro do vazio com todo o cuidado e delicadeza.

         De repente, como se uma grande ventania o tivesse engolido inteiro, ele se viu puxado para o outro lado, sugado para dentro da abertura com a vara e a lente. Em menos de um segundo, o cientista não estava em lugar algum,
    suspenso num vácuo negro e vazio – à deriva, porém mais do que isso, já que não conseguia sentir o corpo. Não sentia gravidade, temperatura nem conseguia ver luz alguma. Não parecia estar respirando, e nem precisava. Era apenas uma entidade flutuante, totalmente a par e ao mesmo tempo completamente desprendido da realidade.

    Como se estivesse olhando através de uma janela suja, ele avistou seu próprio universo.

         Mas não conseguia voltar.

         Jor-El gritou, até que rapidamente percebeu que ninguém podia ouvi--lo naquela dimensão totalmente estranha. Berrou mais uma vez em vão. Tentou se mover, mas não notou qualquer mudança. Estava perdido ali, tão perto de Krypton, mas infinitamente distante.

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